A homenagem de 'cidade-símbolo' da direita a prefeito morto pela ditadura militar
Nova certidão de óbito de Higino Pio reconhece morte como assassinato pelo Estado. Homenagens em Balneário Camboriú marcam a luta pela verdade e justiça em casos de repressão política.
Em 19 de fevereiro de 1969, Julio Cesar Pio testemunhou a prisão do seu pai, Higino João Pio, o primeiro prefeito eleito de Balneário Camboriú, por agentes da repressão militar. Ele foi detido sem explicações e encontrado morto em 3 de março, supostamente por suicídio.
Embora Higino fosse um político progressista, não tinha vínculos com a luta armada ou a esquerda. Em 2014, novas investigações revelaram que ele foi assassinado pelo Estado, levando à retificação de seu atestado de óbito para “morto pelo Estado brasileiro”.
Agora, 56 anos depois, o corpo de Higino será transferido para Balneário Camboriú, com homenagem da prefeitura. Julio conta que o pai foi enterrado em Itajaí, em um caixão lacrado, sem consulta à família. Anos depois, Julio percebeu que seu pai fora um assassinado político.
O relatório da Comissão Nacional da Verdade apontou inconsistências no laudo inicial, mostrando que a versão de suicídio era falsa. Um novo laudo em 2014 reforçou essas conclusões, questionando as condições da morte de Higino.
Em 2018, seis pessoas foram denunciadas pela morte de Higino, mas a denúncia foi rejeitada em 2019 devido à Lei da Anistia. Julio planeja buscar indenização do Estado.
A vereadora Jade Martins Ribeiro solicitará que o translado ocorra no dia 20 de julho, aniversário da cidade, com honrarias. O aditamento das atas da prefeitura de 1969 será discutido, destacando o motivo da morte de Higino.
Apesar do histórico político da família Pio e da resistência a homenagens pela direita local, o apoio à mudança de atestado é significativo. Jair Renan Bolsonaro, único vereador a votar contra, representa a maior bancada da câmara, mas não há oposição aberta às homenagens a Higino.