Por que bairro em que você nasceu determina até onde você vai subir na vida, segundo pesquisador
O economista Michael França lança seu livro "A Loteria do Nascimento", que explora como fatores como classe social, raça e gênero afetam as oportunidades de ascensão. Ele argumenta que, embora a educação seja fundamental, não é suficiente para mudar a desigualdade estrutural na sociedade brasileira.
Michael França, economista de 37 anos, nasceu no bairro Costa Teles 1 em Uberaba, MG. Filho de trabalhadora doméstica, ele se tornou doutor em Teoria Econômica pela USP e pesquisador em instituições renomadas.
França demonstra, em suas pesquisas, que a educação é importante, mas não é suficiente para compensar desigualdades como gênero, raça e lugar de nascimento. Ele define isso como a "loteria do nascimento", onde fatores sociais influenciam diretamente as oportunidades na vida.
Na USP, França foi o único aluno negro em sua turma de mestrado e doutorado. Ele reconhece que políticas afirmativas, como o Prouni, melhoraram o acesso às universidades, mas não erradicaram a desigualdade social no Brasil. A educação não homogeneíza as chances no mercado de trabalho, devido a estruturas de classe e relações sociais que ainda privilegiam ricos.
Seu livro, "A Loteria do Nascimento", reflete essa discussão. França fala sobre como, apesar de se esforçarem, muitos formados de origens desfavorecidas enfrentam barreiras significativas no mercado de trabalho.
Ele destaca que mesmo pessoas altamente qualificadas de classes diferentes têm oportunidades desiguais devido a fatores como rede de contatos e background cultural.
A saúde mental também é uma questão relevante. Jovens de baixa renda muitas vezes não têm histórico de discutir isso e enfrentam pressões inéditas, enquanto os de alta renda podem ter acesso a suporte psicológico.
França critica o governo por usar pautas de desigualdade como um subterfúgio, desviando a atenção de questões estruturais como tributação injusta e gastos públicos que perpetuam a desigualdade.
Ele ressalta que o discurso meritocrático pode ser enganoso, pois ignora fatores históricos que moldam as chances individuais. Para França, é necessário promover discussões sobre desigualdade e mobilidade social desde a escola para ampliar a compreensão e a conscientização sobre essas dinâmicas.