Por que bairro em que você nasceu determina até onde você vai subir na vida, segundo pesquisador
O economista Michael França analisa como a "loteria do nascimento" determina as oportunidades de vida e defende que a educação, embora essencial, não é suficiente para romper com as desigualdades sociais. Seu novo livro discute a influência de fatores como raça, gênero e classe na mobilidade social no Brasil.
Trajetória de Michael França e a Loteria do Nascimento
Michael França, economista de 37 anos, nasceu no bairro Costa Teles 1 em Uberaba, MG. Filho de uma trabalhadora doméstica, se tornou doutor em Teoria Econômica pela USP e pesquisador em universidades renomadas. Apesar de seu sucesso, sua pesquisa revela que a escolaridade sozinha não basta para superar desigualdades relacionadas a gênero, raça e local de nascimento.
Ele define essa situação como a "loteria do nascimento", argumentando que pontos de partida desiguais afetam as oportunidades. Por exemplo, nascer numa família rica aumenta muito as chances em relação a alguém de uma favela.
Na USP, França foi o único aluno negro em sua turma de mestrado e doutorado. Ele destaca que as políticas públicas afirmativas melhoraram o acesso à educação, mas não têm sido suficientes para transformar as desigualdades sociais no Brasil.
Em seu livro A Loteria do Nascimento, lançado em 20/08, coautorado com Fillipi Nascimento, ele discute como classe social, raça e gênero continuam a influenciar o mercado de trabalho, destacando que a educação não é um fator que zera as desigualdades.
França ressalta que mesmo com uma formação superior, pessoas de baixa renda enfrentam desafios únicos para entrar no mercado de trabalho. Ele discute a questão da saúde mental entre jovens de baixa renda e o impacto da maternidade sobre a carreira das mulheres.
Ele critica o discurso de meritocracia, alegando que muitos não reconhecem o papel da herança familiar e as vantagens estruturais das classes mais favorecidas.
França também fala sobre a resistência em relação a propostas de taxação de grandes fortunas no Brasil, mencionando que a sociedade não compreende plenamente suas próprias desvantagens e tende a naturalizar a desigualdade. Isso cria um ciclo de injustiça, onde esforço individual é superestimado e os benefícios de classe são ignorados.
Para finalizar, ele enfatiza a necessidade de discutir e ensinar sobre desigualdade desde a infância, pois muitos ainda têm uma visão simplista sobre a mobilidade social.